ANTÁRTICA – 1a. Expedição Brasileira   1982-1983

Por José Nestor Cardoso* Oceanólogo – Instrutor de Mergulho

A Antártica sempre esteve no contexto da geopolítica brasileira. Sua influência nas condições climáticas, sua vasta extensão territorial de mais de 14 milhões de Km2, suas potencialidades de recursos naturais renováveis ou não, mantiveram vivas as expectativas do Brasil naquele continente gelado. Em 1982, precisamente em 26 de dezembro zarparam do porto de Rio Grande dois navios empreendendo o que seria a primeira expedição científica brasileira na Antártica.

Os navios de apoio oceanográfico (NApOc) Barão de Teffé da Marinha do Brasil e o navio oceanográfico (NOc) Prof. Wladimir Besnard da Universidade de São Paulo tinham como objetivo o levantamento das condições oceanográficas, geológicas, a cartografia, a meteorologia e o estabelecimento de conexões com outras equipes de vários países lá instalados. Além disto, a perspectiva da instalação de uma base permanente do Brasil na Antártica demandava estudos de viabilidade de localização, de instalações e componentes indispensáveis à vida em ambiente hostil.

Tive a honra de participar da equipe de doze pesquisadores na primeira etapa da Primeira Expedição Científica Brasileira a Antártica a bordo do NOc. Prof Besnard da USP, embarcando em Rio Grande em 26/12/82 e desembarcando em Punta Arenas no Chile em 23/01/83, de onde retornei em avião da FAB.

Durante a viagem rumo a Antártica em águas próximas as Ilhas Malvinas fomos interpelados por uma corveta da Marinha Inglesa que patrulhava a área de exclusão como resultado da guerra finda poucos meses antes. Entramos no Porto de Ushuaia na Terra do Fogo pelo Canal de Beagle, onde permanecemos por três dias aguardando condições para a travessia do Estreito de Drake, uma das passagens mais inóspitas da navegação mundial.

Nossa primeira avistagem do continente gelado foi a Ilha Smith; mas não sem antes termos navegado ao lado de grandes icebergs e longas extensões de mar recoberto de gelo miúdo.

Os trabalhos oceanográficos foram todos desenvolvidos no Estreito de Braisfield, que separa a península Antártica (ponta proeminente voltada para a América do Sul) de um cordão de ilhas que se dispõe ao longo da península (Ilhas Shetland do Sul).

Entre os trabalhos desenvolvidos constavam várias observações de oceanografia física, química biológica e geológica além de constante avaliação meteorológica.

Tivemos oportunidade de desembarcar em três pontos sendo o primeiro deles no dia 12/01/83 numa base inglesa abandonada na Ilha Decepção, que é o cume de um vulcão. A base foi abandonada em 1969 em função da atividade vulcânica que soterrou uma base chilena na mesma ilha, destruiu parcialmente uma base argentina e provocou dano considerável na base inglesa.

Nesta ilha, em função desta atividade vulcânica é possível se encontrar poços de água em ebulição em meio a vastidão gelada.

O Navio Baia Paraíso encalhou e afundou sendo completamente perdido em acidente no ano de 1989. Este acidente propiciou um dos primeiros vazamentos de óleo em águas antárticas.

Com a continuidade dos trabalhos oceanográficos passamos na Ilha do Almirantado onde visitamos a base polonesa de Arctowski. Fomos convidados a participar de uma coquetel na base, retribuindo com uma janta a bordo do Besnard. Nesta ilha o Brasil hoje possui sua base permanente Comandante Ferraz.

No dia 23/01/83 chegamos a Punta Arenas no Chile, após a travessia do Estreito de Drake e a passagem pelo Estreito de Magalhães, onde já nos esperava o NApOc Barão de Teffé. Fomos rendidos por uma segunda equipe de pesquisadores que empreendeu a segunda etapa da expedição, enquanto voltávamos em avião da FAB, com escalas em Comodoro Rivadávia e Buenos Aires na Argentina.

Como resultado dos trabalhos de investigação científica desenvolvidos na Antártica o Brasil passou da classe de membro aderente a membro consultivo do Tratado Antártico, com direito a voto nas decisões dos destinos da Antártica. Atualmente projetos das mais diversas áreas são desenvolvidos por instituições de todo o Brasil e também em conjunto com outros países reforçando a presença nacional no continente gelado.

O Aquecimento global, a perda da camada de ozônio, a circulação oceânica global e sua interação com a atmosfera são algumas das áreas de interesse com estudos de grande envergadura desenvolvidos atualmente.

Sem dúvida foi a primeira expedição a base de todo o Projeto Antártico e solidificou a presença brasileira na Antártica, destacando nosso país no contexto global e destacando a seriedade da pesquisa desenvolvida no país.


EQUIPE CIENTÍFICA DA PRIMEIRA ETAPA

1. MOTONAGA IWAI –USP – Pesquisador chefe.

2. PHAN VAN NGAN – USP

3. MOYSÉS GONSALEZ TESSLER – USP

4. OSWALDO AMBRÓSIO JR. – USP

5. RUBENS JUNQUEIRA VILLELA – USP

6. LUIZ VIANNA NONATO – USP

7. FREDERICO BRANDINI –UFPR

8. JOSÉ NESTOR CARDOSO – FURG

9. LAURO ANTONI MADUREIRA – SUDEPE

10. RENATO AMARAL – UFRGS

11. CLARIMUNDO DE JESUS – USP

12. LOURIVAL PEREIRA DE SOUZA – USP

 

ROTEIRO NOc. PROF. W. BESNARD

 

Data
Partida
Chegada
Bases
20/12/82
Santos
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-
23/12/82
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Rio Grande
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26/12/82
Rio Grande
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04/01/83
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Ushuaia
-
06/01/83
Ushuaia
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-
09/01/83
Estreito de Brainsfield
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12/01/83
-
Ilha Decepiciòn
Base inglesa abandonada
13/01/83
-
Ilha Rei Jorge
Jubany
14/01/83
-
Baia Almirantado
Arctowski
19/01/83
Estreito de Brainsfield
-
-
23/01/83
-
Punta Arenas
-

 

 
José Nestor Cardoso é natural de Içara – Santa Catarina graduou-se em Oceanologia nas habilitações Oceanografia Biológica e Oceanografia Geológica pela Fundação Universidade do Rio Grande em 1978. Em 1979 passou a fazer parte do quadro de pesquisadores de mesma Universidade desenvolvendo atividade de pesquisas no Laboratório de Oceanografia Física e sendo o titular da disciplina de Técnicas de Mergulho Submarino. Foi o primeiro mergulhador científico credenciado no país pela Confederation des Activites Subaquatiques (CMAS) com a credencial PS BRE 0001. É instrutor de mergulho Master Scuba Diver Trainner da Professional Association of Diving Instructors (PADI), Instrutor três estrelas da CMAS e Instrutor de Advanced Nitrox e Gas Blender Instructor pela International Association of Nitrox and Technical Divers (IANTD). Na Furg ministrou outras disciplinas, entre elas; Oceanografia Física, Equipamentos Geo-oceanográficos; Ciências do Ambiente, Sedimentologia e Tecnologia Pesqueira.

 

 

O Programa Antártico Brasileiro


 

 Uma das exigências para a participação de um país como Parte Consultiva do Tratado da Antártida é a realização de atividades científicas substanciais naquela região. O Brasil aderiu ao Tratado da Antártida em maio de 1975. As atividades de pesquisa do Programa Antártico Brasileiro - PROANTAR iniciaram-se durante a Operação Antártica I, realizada a bordo do NApOc Barão de Teffé, da Marinha do Brasil, e do Professor W. Besnard, da Universidade de São Paulo, no verão austral de 1982/1983. No dia 12 de setembro de 1983, o Brasil foi admitido como Membro Consultivo do Tratado da Antártica.
  É de responsabilidade da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar - CIRM, coordenada pelo Comandante da Marinha, a condução do PROANTAR que possui uma secretaria, a SECIRM, para a execução das atividades administrativas de gerência do programa.
   A SECIRM coordena a Subcomissão para o PROANTAR, que conta com assessoria de três grupos em suas deliberações:
- Grupo de Assessoramento (GA) - avalia quanto ao mérito científico e sugere a aprovação ou não de projetos científicos para cada OPERANTAR.
- Grupo de Operações (GO) - verifica a exequibilidade do apoio logístico aos projetos aprovados pelo GA, e planeja a operação do navio e dos vôos de apoio.
- Grupo de Avaliação Ambiental (GAAm) - tem o propósito de avaliar o impacto ambiental das atividades científicas a serem desenvolvidas em cada OPERANTAR.

  As atividades brasileiras na Antártica são desenvolvidas na Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), em acampamentos e em três refúgios localizados nas Ilhas Elefante, Nelson e Rei George e a bordo do Navio de Apoio Oceanográfico (NApOc) Ary Rongel, que substituíu o Barão de Teffé. 
   O NApOc Ary Rongel, adquirido em março de 1994,pode operar com dois helicópteros bi-turbinados. É dotado de laboratórios para pesquisas nas áreas de Meteorologia e Oceanografia,podendo acomodar até 27 pesquisadores. As atividades logísticas contam com o apoio da Estação de Apoio Antártico (ESANTAR), localizada na Fundação Universidade Federal do Rio Grande, que promove o abastecimento da EACF, refúgios e acampamentos, e o apoio necessário à manutenção dos equipamentos de campo utilizados nas operações.

Completando o esforço brasileiro na Antártica, a Força Aérea Brasileira realiza sete vôos de apoio, possibilitando a troca de pesquisadores e o apoio logístico à EACF durante o inverno. O Ministério das Minas e Energia, por meio da Petróleo Brasileiro S.A. - PETROBRÁS, fornece o combustível necessário à condução das Operações Antárticas.
   As atividades científicas do PROANTAR estão agrupadas nos Sub-programas de Ciências da Atmosfera, Ciências da Terra e Ciências da Vida, compreendendo as seguintes áreas de conhecimento: Circulação Atmosférica; Física de Alta Atmosfera; Climatologia; Meteorologia; Geologia Continental e Marinha; Glaciologia; Oceanografia; Biologia; Ecologia; Astrofísica; Geomagnetismo; e Geofísica Nuclear.

Fonte:ESANTAR/FURG

 

O Tratado da Antártida



  Em 1950, no Conselho Internacional da União Científica (ICSU), foi discutida a possibilidade de ser realizado o Terceiro Ano Polar Internacional. Por sugestão da Organização Meteorógica Mundial (WMO), o conceito de ano polar foi estendido para todo o Globo, nascendo, assim o Ano Geofísico Internacional, que veio a realizar-se de Julho de 1957 até dezembro de 1958.
O ICSU aprovou, em 1957, a criação do Comitê Especial para Pesquisas Antárticas (SCAR), formado por delegados de diversos países engajados em pesquisas antárticas. Esse foi um marco importante para o desenvolvimento das pesquisas no Continente, tendo delas participado: Argentina, Austrália, Bélgica, Chile, Estados Unidos, França, Japão, Noruega, Nova Zelândia, Reino Unido, Republica Sul Africana e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

  Encerrado o Ano Geofísico Internacional, os países participantes das pesquisas antárticas mantiveram suas estações, reafirmando seu interesse na região, o que motivou a convocação feita pelos Estados Unidos para a conferência de Washington em 1959, que discutiria o futuro do Continente. Como resultado da conferência de Washington, os doze países que dela participaram assinaram, em 1º de dezembro de 1959 o TRATADO DA ANTÁRTIDA, que entrou em vigor em 23 de junho de 1961.

  Esse tratado possui um regime jurídico que estende a outros países além dos 12 iniciais, a possibilidade de se tornarem Partes Consultivas nas discussões que regem o "status"do Continente quando, demonstrando seu interesse, realizarem atividades de pesquisa científica substanciais
  A área, abrangida pelo Tratado da Antártica, situa-se ao sul do paralelo de 60 , na qual se aplicam os seus 14 artigos, que consagram princípios como: a liberdade para a pesquisa científica, a cooperação internacional para este fim e a utilização pacífica da Antártica, proibindo expressamente a militarização da região e sua utilização para explosões nucleares ou como depósito de resíduos radioativos

 Fonte: ESANTAR /FURG

 

A Estação Comandante Ferraz


  A Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) está situada na Baía do Almirantado, Ilha Rei George, arquipélago das ilhas Schetlands do Sul. A EACF, inaugurada em 6 de fevereiro de 1984, na península Keller, está localizada a 62º 05' S e 058º 24' W. Atualmente mais de 60 módulos compõem a EACF entre alojamentos, laboratórios, oficinas, uma sala de estar, uma enfermaria , uma cozinha, uma biblioteca, paióis, uma sala de comunicações, um pequeno ginásio de 
esportes e um heliponto.
  Com aproximadamente 2250 metros quadrados de área construída, a EACF possui instalações capazes de abrigar 46 pesssoas. As seguintes facilidades estão disponíveis para pesquisa: Laboratórios de Biologia (seco e molhado); Módulos de Ciência da Atmosfera; Módulos Aquários; Módulo de Meteorologia; Módulo de Ionosfera; Módulo de Química; Módulo de Triagem; lancha de pesquisa; botes infláveis, e microcomputadores com acesso a Internet. A estação é administrada pelo Grupo Base durante o ano todo, constituído por dez militares da Marinha do Brasil. A manutenção é realizada pelos engenheiros e servidores do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ).

  Visando a proteção do meio ambiente Antártico e atender ao Protocolo de Madri, uma série de providências foram tomadas na EACF, entre as quais a instalação de tanques de óleo combustível com paredes duplas; colocação de duplo fundo nas chatas de óleo, substituição do sistema de esgoto da Estação, adequando-o para ser utilizado por até 60x; instalação de filtros oxicatalisadores na descarga dos grupos motores - geradores; instalação de equipamento para incinerar lixo que produz cinzas inertes; e coleta seletiva de lixo.

FONTE:ESANTAR/FURG